Princípios da Incerteza

VENHA DAÍ E SENTE-SE NO SOFÁ DA REFLEXÃO.

A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) lançou, ontem, em Paris, no Dia Mundial da Filosofia, a “Revista das Filósofas”, publicação online, disponível apenas em inglês e francês.

O lançamento da revista foi feito à margem da Assembleia da Rede Internacional das Filósofas, patrocinada pela UNESCO, que edita a publicação. A revista pretende ser “um fórum de escrita e de intercâmbios onde as mulheres podem escrever o mais livremente possível, imaginando-se a serem lidas por mulheres e longe do olhar de um leitor masculino imaginário e universal”.

A publicação, esclareceu a agência Onusina, que anunciou a iniciativa, tem informações sobre os estágios, oportunidades de estudos e outras aberturas para as filósofas, que são, na maioria, estudantes de doutoramento e investigadoras.

A publicação, referiu a UNESCO, é uma “experiência global que dá a oportunidade, a quem escreve, de pensar sem limites e de ser lido por pessoas com mentes abertas.”

As filósofas, além disso, têm acesso a informação sobre bolsas de estudo, estágios e oportunidades para doutoramentos e pesquisas.

O Dia da Filosofia foi marcado também por conferências sobre várias questões, entre as quais a partilha equitativa dos benefícios da ciência, o sentido filosófico do levantamento político no mundo árabe, o papel e a posição das filósofas no exercício do pensamento e a filosofia e a igualdade de possibilidades na escola.

13.10.11

Questões filosóficas :)

incertezas de Marisa |

Que melhor forma de celebrar a Filosofia, que teve o seu Dia Internacional ontem, dia 18 de Novembro, do que esta notícia: Exame de Filosofia vai ser reposto no Ensino Secundário! :) E viva o pensamento livre, crítico e como prática de vida!

"A disciplina de Filosofia deverá voltar a integrar, já no próximo ano lectivo, o lote de exames obrigatórios para a conclusão do ensino secundário. Esta foi a garantia que o Ministério da Educação deu à Sociedade Portuguesa de Filosofia, indicou ao PÚBLICO o seu presidente, Ricardo Santos.

O último exame de Filosofia realizou-se em 2007. O fim desta prova, realizada no 11.º ano, fora decidido dois anos antes pelo Ministério da Educação. A disciplina de Filosofia deixou também de ser obrigatória no 12.º ano dos cursos científico-humanísticos, geralmente escolhidos pelos estudantes que querem prosseguir estudos. Deste modo deixou também de figurar entre as provas de acesso pedidas pelas instituições do ensino superior.

Estas medidas foram contestadas pela sociedade portuguesa e pela associação de professores de Filosofia e também por vários responsáveis do ensino superior, que alertaram para o perigo de uma morte a prazo da disciplina. O Ministério da Educação não forneceu números sobre a evolução do número de inscritos em Filosofia no 12.º ano. Ricardo Santos assegura que a disciplina deixou praticamente de existir neste ano de escolaridade. No 10.º e 11.º continua a ser obrigatória, mas, segundo o presidente da SPF, as medidas adoptadas contagiam também estes anos: "Registou-se uma desvalorização da disciplina. Os alunos deixaram de investir tanto nela e há uma maior desmotivação dos docentes".
O Ministério da Educação - que não respondeu às questões do PÚBLICO - terá optado agora por arrepiar caminho. Tanto Ricardo Santos, como Alexandre Franco de Sá, presidente da Associação de Professores de Filosofia, asseguram que o primeiro passo será dado já em Fevereiro próximo, com a realização, no 10.º ano, de um teste intermédio de Filosofia. A informação sobre a estrutura e conteúdos da prova já foi enviada para as escolas. Estes testes funcionam como ensaio para os exames nacionais, tendo vindo a ser realizados, nos últimos anos, nas disciplinas sujeitas a estas provas. E são facultativos. Segundo Ricardo Santos, pelo menos um terço das 600 escolas secundárias inscreveu-se para realizar o teste de Filosofia.

Ricardo Santos está convicto de que a reafirmação da importância da disciplina será bem acolhida pelos estudantes e que não será difícil cativá-los: "O ensino antes era muito centrado na história da Filosofia. Hoje esta já não tem tanto peso e o ensino é mais focado em problemas que os jovens sentem e que os perturbam e a Filosofia dá-lhes respostas diferentes para estes problemas". Defende, no entanto, que o programa em vigor "está muito ultrapassado, não sendo, por isso, adequado". in Público 19|11|2010

1.7.10

Futebol dos Filósofos :)

incertezas de Marisa |


A última entrada no blog de Saramago: «Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma.»



28.1.10

Up in The Air

incertezas de Marisa |


“You're a parenthesis.”



“I thought we signed up for the same thing... I thought our relationship was perfectly clear. You are an escape. You're a break from our normal lives. You're a parenthesis.”


Eis as frases que ficam a ecoar depois de sair da sala de  cinema. Realizado por Jason Reitman (Yhank You For Smoking e Juno) com George Clooney, Vera Farmiga e Anna Kendrick, Up In The Air pode muito bem ser um dos filmes de carga filosófica e análise existencial melhor conseguido dos últimos tempos.
Em jeito de tragicomédia, Reitman consegue, como poucos, explorar o existencialismo e a sua carga dramática, vivida, cómica, triste, romântica. Trágica. Cruel.
Os comportamentos esterótipados e formatados, a organização conceptual asséptica, abstémia de vida e de imprevisibilidade estão muito bem conseguidas através das metafóricas imagens do aeroporto organizado e metodologicamente programado, quer nos actos como nas interacções entre pessoas. A vida do nosso protagonista, Ryan Bingham (George Clooney) é espelhada nessas imagens. Um especialista em despedir pessoas, em deixá-las à deriva, numa época em que o desespero do desemprego e da ruptura dos mercados económicos é um tema fulcral para os Estados Unidos. Falamos de um especialista em nada ter. Especialista em carregar uma mochila vazia às costas, enquanto outros, segundo a sua filosofia de vida, andam carregados com tudo o que a sua vida acumulou. O mais pesado segundo Bingham, são as pessoas que fazem parte da vida de cada um. Aí está algo que ele descarta. Profissional e pessoalmente. 
Neste filme contam-se histórias de vida peculiares mas estranhamente ligadas à de qualquer um de nós.
Á medida que Bingham se vai envolvendo com as duas personagens chave Alex (Vera Farmiga) e a sua jovem e crítica colega de trabalho (Anna Kendrick) a forte convicção na sua filosofia de vida desligada de outros seres humanos começa a dar de si. Os próprios ambientes em que se move começam a mudar pela presença destas pessoas e começam a tornar-se humanizados para ele, imprevisíveis e problemáticos. Mas também infinitamente mais ricos. A confrontação com esses ambientes, com a alteridade e com a partilha de emoções de outras pessoas começa aos poucos a infiltrar-se em Bingham, que já não consegue manter a sua indiferença habitual, projectando-o como um ser com uma possível família, com laços. Com alteridade. Com peso. Já dizia Santo Agostinho "o meu peso é o meu amor" e aqui esse sentido é espelhado na mochila que todos carregamos às costas, com tudo o que nos é mais querido. O erro de Bingham foi não perceber que sem esse peso, apenas nos restam as nuvens e nesta excelente metáfora, a ausência dessa gravidade vivencial representa o constante acto de andar de avião, entre as nuvens, sem laços, sem ligações. No vazio.
A confrontação com o vazio dá-se no momento em que finalmente o seu grande objectivo de vida se concretiza: completar um milhão de milhas e ganhar o exclusivo cartão de membro Premium. No exacto momento em que caiu, com todo o seu peso gravitacional, nestas palavras: “I thought we signed up for the same thing... I thought our relationship was perfectly clear. You are an escape. You're a break from our normal lives. You're a parenthesis.” 

12.1.10

Hannah e Martin

incertezas de Marisa |


'Hannah e Martin', amor em tempos sombrios

O Teatro Aberto, em Lisboa, tem em cena, desde18 de Dezembro de 2009,o encontro entre Hannah Arendt e Martin Heidegger, dois pensadores alemães cuja vida e obra são indissociáveis da tumultuosa história europeia do século XX.
Num tempo de catástrofes políticas, morais e humanas, um homem e uma mulher procuram encontrar um lugar para o amor, para o conhecimento e para si próprios. Eles são Hannah Arendt, filósofa judia, e Martin Heidegger, filósofo alemão convertido ao nazismo. A história dos seus encontros e desencontros conta-se na peça Hannah e Martin, pelas 21.30 no Teatro Aberto, em Lisboa.
Kate Fodor, jornalista norte-americana, é a autora desta obra, que João Lourenço e Vera San Payo de Lemos trazem agora para os palcos portugueses.
Esta "é uma peça sobre a memória e o perdão", diz João Lourenço, o encenador, confesso admirador do pensamento e da figura de Hannah Arendt.
O eixo da obra dramatúrgica é o encontro de Arendt, então uma jovem estudante judia, com Heidegger, já um dos mais reputados pensadores europeus, no período entre as duas Guerras.
O fascínio que ambos sentiam um pelo outro acabou por se transformar numa relação profunda que o afastamento geográfico, político e moral não destruiu. E, não obstante a ligação de Heidegger ao partido nazi e a partida da Hannah para os Estados Unidos para fugir aos campos de concentração, foi ela que, depois da II Guerra, o ajudou a refazer a carreira.
São de Arendt as memórias que, ao longo de duas horas, desfilam pelo palco dando a ver fragmentos da relação com Martin Heidegger e, em simultâneo, momentos da história da Europa, desde a subida de Hitler ao poder até aos julgamentos de Nuremberga.
Ana Padrão volta ao teatro para dar rosto à filósofa judia e Rui Mendes encarna Heidegger.
" Precisava de pessoas com capacidade de colocar uma ênfase dramática no discurso, capazes de compreender profundamente o significado daquilo que estão a dizer, como é o caso de Rui Mendes", justifica João Lourenço.
A escolha da actriz Ana Padrão, cuja trajectória teatral é quase desconhecida, deveu-se "à necessidade de encontrar uma pessoa diferente, cujo rosto emanasse vida", explica ainda.
A dramaturgia da peça recorre à duplicação das cenas, que ao mesmo tempo em que estão ser representadas pelos actores, são filmadas e exibidas em três painéis no fundo do palco.
Este artifício foi a forma que o encenador encontrou para "tornar a peça mais leve e criar um maior efeito dramático".
O elenco conta ainda com Irene Cruz, no papel de mulher de Heidegger, com Cristóvão Campos, Diogo Mesquita, Luís Alberto, entre outros.
Kate Fodor escreveu esta peça ao longo de cinco anos, nos intervalos do seu trabalho como jornalista da Agência Reuters. A obra estreou em 2003 no Manhattan Theater, em Nova Iorque e, desde então, já passou por palcos europeus, sempre bastante aclamada.
João Lourenço "descobriu" Hannah e Martin num teatro de Paris mas decidiu incluir nos textos de Fodor excertos das obras dos dois pensadores. O objectivo era "dar a conhecer um pouco do pensamento e dos textos de Arendt e Heidegger, cuja actualidade é flagrante no Portugal de hoje", diz.
Saber mais no Teatro Aberto.

O professor desta aula sobre a Felicidade é o psicólogo americano Daniel Gilbert.

A dica foi dada pelo Dr. Jorge Dias, colega e consultor filosófico no blog Gabinete Project



Eva é o seu nome fictício. Dei-lhe este nome porque entrou no meu gabinete como se fosse a primeira mulher no planeta a sofrer com tudo aquilo que me queria dizer.
Eva gostava de ser mais decidida.
Mais forte.
Mais confiante.
Gostava de voltar a acreditar.
Eva queria ter a coragem para admitir o quanto é infeliz. De não ter de fingir perante todos o que já sabe que não é mas que não tem coragem de admitir. Gostava de saber quem é e de o dizer alto e a bom som, mas isso a Eva também não sabia. Por isso mais valia adiar esse acto dramático que era mostrar que não era o que todos pensavam que era.
Eva era o suporte da mãe e do irmão. Eva era o garante dos colegas de emprego, era quem estava sempre presente quando era preciso. A Eva não se dava ao direito de faltar ao trabalho, de falhar aos familiares, de não assegurar tudo o que havia para assegurar. Até nos afectos, Eva era o suporte do seu "amigo colorido casado com outra mulher", com quem mantinha uma relação insatisfatória e intermitente de amor e para quem corria ao mínimo chamamento ou capricho. "Relação intermitente de amor", que expressão me havia de ocorrer ao ouvir-te, Eva. Intermitências de amor são esses momentos em que nos perdemos da vida, não são?
Eva seria o suporte de si mesma?
Mais uma questão a que não sabia responder. Sabia que todos à sua volta eram muito dependentes dela.
Outra questão difícil, seguida de um silêncio compreensível: quem é dependente de quem?
Conversamos um pouco sobre a dialéctica hegeliana do escravo e do senhor e a teoria da mútua dependência.
E a Eva, onde ficava? Ficava algures entre as intermitências onde vislumbrava, por alguns segundos, o que poderia ser, uma pessoa livre e feliz, que fazia o que desejava e não o que todos os outros precisavam que ela fizesse. Gostava de dizer que não se sente em casa mas que a casa com que sonha, esse lar cheio de risos cristalinos e liberdade esvoaçante não existe. Gostava de dizer que não é isto que quer, que "não é assim" que é feliz, sem que todos a achem fraca, fiquem desiludidos ou fujam. Mas no dia em que o disser, nesse dia, tudo isto passaria a ser verdade.
Mas de repente, vindos do nada, continuava Eva, surgiram aqueles momentos horríveis de perda de controlo, de ansiedade profunda, de sentir aquele nó na garganta e parecer que ia morrer.
Eva sentia que havia um botão qualquer que estava avariado e que não conseguia encontrar a caixa das ferramentas e que a única coisa que a aliviava era um xanax, mas que "isso também não é remédio" e que por isso estava ali, naquele dia, comigo.

Embora estes episódios sintomáticos de aflição e ansiedade a tenham levado ao meu consultório naquele dia chuvoso, a questão que a assombrava era a mais filosófica das questões: "o que sou eu, quem sou, o que quero ser?" Logo seguida da questão "como ser feliz?" Como se ser feliz fosse intrínseco ao acto de sermos alguém. Ao que respondi com outra pergunta: "o que seria para ti, Eva, ser feliz?"  "Ser mais independente. Ser livre. Saber dizer não. Mas não sei como."
Quando saiu, ao final de uma hora e trinta minutos, Eva tinha mais de 10 chamadas telefónicas da mãe.

Em jeito de desafio fica a pergunta à qual a Eva tentará responder na consulta seguinte: "a que corresponde, na vossa vida prática, ser livre?"

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