'Hannah e Martin', amor em tempos sombrios
O Teatro Aberto, em Lisboa, tem em cena, desde18 de Dezembro de 2009,o encontro entre Hannah Arendt e Martin Heidegger, dois pensadores alemães cuja vida e obra são indissociáveis da tumultuosa história europeia do século XX.
Num tempo de catástrofes políticas, morais e humanas, um homem e uma mulher procuram encontrar um lugar para o amor, para o conhecimento e para si próprios. Eles são Hannah Arendt, filósofa judia, e Martin Heidegger, filósofo alemão convertido ao nazismo. A história dos seus encontros e desencontros conta-se na peça Hannah e Martin, pelas 21.30 no Teatro Aberto, em Lisboa.
Kate Fodor, jornalista norte-americana, é a autora desta obra, que João Lourenço e Vera San Payo de Lemos trazem agora para os palcos portugueses.
Esta "é uma peça sobre a memória e o perdão", diz João Lourenço, o encenador, confesso admirador do pensamento e da figura de Hannah Arendt.
O eixo da obra dramatúrgica é o encontro de Arendt, então uma jovem estudante judia, com Heidegger, já um dos mais reputados pensadores europeus, no período entre as duas Guerras.
O fascínio que ambos sentiam um pelo outro acabou por se transformar numa relação profunda que o afastamento geográfico, político e moral não destruiu. E, não obstante a ligação de Heidegger ao partido nazi e a partida da Hannah para os Estados Unidos para fugir aos campos de concentração, foi ela que, depois da II Guerra, o ajudou a refazer a carreira.
São de Arendt as memórias que, ao longo de duas horas, desfilam pelo palco dando a ver fragmentos da relação com Martin Heidegger e, em simultâneo, momentos da história da Europa, desde a subida de Hitler ao poder até aos julgamentos de Nuremberga.
Ana Padrão volta ao teatro para dar rosto à filósofa judia e Rui Mendes encarna Heidegger.
" Precisava de pessoas com capacidade de colocar uma ênfase dramática no discurso, capazes de compreender profundamente o significado daquilo que estão a dizer, como é o caso de Rui Mendes", justifica João Lourenço.
A escolha da actriz Ana Padrão, cuja trajectória teatral é quase desconhecida, deveu-se "à necessidade de encontrar uma pessoa diferente, cujo rosto emanasse vida", explica ainda.
A dramaturgia da peça recorre à duplicação das cenas, que ao mesmo tempo em que estão ser representadas pelos actores, são filmadas e exibidas em três painéis no fundo do palco.
Este artifício foi a forma que o encenador encontrou para "tornar a peça mais leve e criar um maior efeito dramático".
O elenco conta ainda com Irene Cruz, no papel de mulher de Heidegger, com Cristóvão Campos, Diogo Mesquita, Luís Alberto, entre outros.
Kate Fodor escreveu esta peça ao longo de cinco anos, nos intervalos do seu trabalho como jornalista da Agência Reuters. A obra estreou em 2003 no Manhattan Theater, em Nova Iorque e, desde então, já passou por palcos europeus, sempre bastante aclamada.
João Lourenço "descobriu" Hannah e Martin num teatro de Paris mas decidiu incluir nos textos de Fodor excertos das obras dos dois pensadores. O objectivo era "dar a conhecer um pouco do pensamento e dos textos de Arendt e Heidegger, cuja actualidade é flagrante no Portugal de hoje", diz.